Panfletos da AfD a serem deitados ao lixo

Panfletos da AfD a serem deitados ao lixo | Patryk Witt/Center for Political Beauty

A AfD fez um contrato-armadilha e os seus panfletos foram parar ao lixo

O coletivo antifascista Zentrum für Politische Schönheit (ZPS, Centro de Beleza Política, em português) despejou cinco milhões de panfletos da AfD no caixote do lixo, depois de ter criado uma empresa falsa que celebrou um contrato para os distribuir com o partido de extrema-direita. O Setenta e Quatro compilou uma pequena lista de ações do género levadas a cabo nos últimos anos.

Extrema-direita
30 Setembro 2021

A Alternativa para a Alemanha (AfD) sofreu esta semana um golpe mediático. O coletivo antifascista Zentrum für Politische Schönheit (ZPS, Centro de Beleza Política, em português) despejou cinco milhões de panfletos da AfD no caixote do lixo, depois de ter criado uma empresa falsa que celebrou um contrato para os distribuir com o partido de extrema-direita.

A armadilha começou semanas antes das eleições. O coletivo estabeleceu uma empresa falsa, a Flyerservice Hahn, e plantou no seio da AfD a ideia de ser contratada para distribuir os panfletos uma semana antes das legislativas, sem darem pormenores sobre como o fizeram. O falso gerente tinha uma conta falsa no LinkedIn, a empresa detinha um site bem elaborado e postos de recolha de encomendas, onde os dirigentes da AfD de 85 estruturais regionais e locais se dirigiram com toda a normalidade para os entregar.

Uma das razões que atraíram a atenção do partido foi o preço para distribuir a propaganda, muito baixo e extremamente competitivo no mercado. Porém, a empresa não tinha qualquer registo comercial, e os dirigentes da AfD não se deram ao trabalho de a investigar minimamente.

O primeiro sinal de que algo não corria como esperado começou na terça-feira da semana passada, dias antes das eleições. O coletivo comunicou à AfD que não seria capaz de distribuir os panfletos recolhidos por todo o país por “motivos de organização”. “Os termos e condições do prestador de serviços excluem expressamente a distribuição de ‘propaganda e declarações falsas’, bem como de materiais publicitários de ‘partidos políticos’”, revelou o grupo ativista no comunicado em que expôs a armadilha.

O partido de extrema-direita estava em contagem decrescente para a ida às urnas de milhões de eleitores e soube nesse momento que cinco milhões de panfletos estavam perdidos. A AfD ficou furiosa. Os panfletos tinham desaparecido, mas não se sabia onde estavam. Esta semana soube qual o seu destino: as 72 toneladas de panfletos foram transportadas em vários camiões até uma central de lixo e lá despejados.

“Cumprimos as recomendações relativas ao coronavírus do governo federal: ‘Fomos preguiçosos como guaxinins e não fizemos absolutamente nada’”, disse o grupo em comunicado, citado pelo noticiário alemão Tagesschau, do canal de televisão ARD. A referência aos guaxinins é uma piada com um vídeo do governo federal alemão sobre a pandemia de covid-19 a recomendar aos alemães que ficassem em casa, que fossem preguiçosos que nem guaxinins. 

Reconhecendo a armadilha, a AfD anunciou que vai avançar com um processo judicial contra os ativistas polítcos por entender que hou uma “interferência massiva na campanha eleitoral democrática”.

“Folhetos que não são entregues são inúteis para a nossa campanha eleitoral. É exatamente nisso que as pessoas por detrás desta ação, inclusive representantes do chamado Centro de Beleza Política, estão obviamente interessadas”, disse na sexta-feira passada o porta-voz federal da AfD, Tino Chrupalla.

Aproveitando a onda mediática, os ativistas voltaram a capitalizar com a ação de sabotagem: quem lhes doar dez euros recebe merchandising (isqueiros, bonés e camisolas) da Flyerservice Hahn. “Infelizmente, o nosso único cliente está extremamente irritado e quer-nos processar. Então, torne-se agora parte do serviço de distribuição Hahn”, escreveu no Twitter o coletivo, partilhando um link para doações. Os ativistas recolheram em poucas horas mais de 22 mil euros.

Esta é a mais recente ação de sabotagem do movimento antifascista alemão contra a extrema-direita. O Setenta e Quatro compilou uma pequena lista de ações do género levadas a cabo nos últimos anos:

1) Obrigado, já estás na nossa base de dados

Em agosto de 2019, uma multidão de extremistas de direita percorreu as ruas da cidade de Chemnitz, na Saxónia, no leste da Alemanha, perseguindo imigrantes e todas e todos aqueles que se parecessem estrangeiros. O episódio escandalizou a Alemanha e o mundo décadas depois da queda do nazi-fascismo.

Um ano depois, um relatório das autoridades citado pela imprensa alemã revelou que os extremistas trocavam mensagens vangloriando-se das agressões cometidas contra imigrantes e estrangeiros. Os vídeos das perseguições tornaram-se virais nas redes sociais e o coletivo Zentrum für Politische Schönheit levou a cabo uma operação para expor os extremistas. Chamaram-lhe CSI: Chemnitz, e seguiram o método pote de mel quando extremistas são atraídos para revelarem as suas identidades e redes. 

Os ativistas políticos criaram um site em que disseram ter acesso à base de dados de mais de mil neonazis que tinham participado nas perseguições em Chemnitz, direcionando os seus serviços às empresas que quisessem saber se tinham funcionários envolvidos. Também expuseram imagens de procurados, com dinheiro a ser oferecido pelas identidades de indivíduos presentes nos vídeos e fotos. Mostraram imagens do escritório da organização e esperaram. Era tudo falso, mas os neonazis não sabiam.

Atraídos que nem abelhas, os neonazis pesquisaram os seus nomes e dos seus amigos na alegada base de dados, ficando esses nomes registados. As suas identidades foram reveladas pelos próprios. Mas também as suas redes de contactos, os seus mais próximos. Os ativistas conseguiram, a partir daí, mapear as relações pessoais no circuito alemão de extrema-direita em Chemnitz e redondezas. E depois transmitiram as identidades às autoridades alemãs.

“Seis meses de planeamento, três meses de pesquisa, uma grande equipa e no final apenas uma questão: quem eram os nazis em Chemnitz? Com 1552 participantes fomos capazes de identificar a maioria deles. Mas não todos”, lê-se no site do coletivo referente à operação CSI: Chemnitz. “Com especialistas em reconhecimento facial, inteligência artificial e algoritmos, alcançámos um objetivo particular com este site: os nazis devem revela tudo o que sabem sobre outros nazis sem se aperceberem”.

2) Sim, o Estado financia os Antifa

Há muito que a extrema-direita alemã propaga a narrativa de que o Estado financia as atividades dos Antifa, grupo inorgânico de esquerda direcionado para a ação direta contra o fascismo. Essa narrativa ganhou cada vez mais ímpeto nos últimos anos ao ponto de haver quem afirme que o Estado paga salário aos Antifa para irem a manifestações antifascistas.

Foi com este mote que o coletivo artístico Berlim Peng se candidatou a fundos estatais para receber 20 mil euros para organizar a exposição “Antifa  Mitos e Verdades”, presente no Festival de Arte de Chemnitz. Em agosto de 2020, os antifascistas, encapuzados, tiraram uma fotografia com um grande cheque e partilharam nas redes sociais. O cheque era emitido pela cidade de Chemnitz e endereçado aos Antifa.

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Antifascistas pousam com cheque para humilharem neonazis
Antifas com cheque | Foto do coletivo de artistas Berlim Peng

3) Acabou-se a cerveja

O aniversário de Adolf Hitler é uma das principais datas comemoradas pelos neonazis e há anos que a cidade de Ostritz, em Dresden, aparecia na imprensa pelas piores razões: tornava-se por uns dias o epicentro nacional de centenas de neonazis que ali se juntavam para participar no Festival Schild un Schwert (Festival Escudo e Espada, em português).

Em junho de 2019, a população de duas mil pessoas chegou ao ponto de dizer “basta!” e comprou toda a cerveja disponível no supermercado local. Foram grades e grades: empilharam-nas em carros e levaram-nos para um centro social da cidade. Ao mesmo tempo, a polícia confiscou 4400 litros de cerveja aos cerca de 600 neonazis, deixando-os a seco. Sem terem onde se abastecer, o festival tornou-se uma experiência bastante sóbria.

“Foi tudo planeado com uma semana de antecedência. Queríamos ‘secar’ os nazis”, explicou Georg Salditt, habitante de Ostritz, ao britânico The Telegraph. E conseguiram.

4) Um memorial bem perto de si

Em janeiro de 2017, Björn Höcke, líder d’A Ala, a fação mais agressiva da AfD, criticou a existência do memorial do Holocausto, em Berlim, dizendo que era uma “vergonha”. “Os alemães são o único povo no mundo que plantam um memorial da vergonha no centro da capital”, disse o líder fascista em Dresden, bastião histórico de manifestações da extrema-direita. Centenas de manifestantes aplaudiram as suas palavras.

Meses depois, em novembro de 2017, o coletivo ativista Zentrum für Politische Schönheit construiu um mini modelo do memorial do Holocausto de Berlim à porta da casa de Höcke. As placas de betão, em tudo semelhantes às do memorial de Berlim, preencheram um descampado mesmo ao lado da casa do líder fascista.

“Estamos a cumprir o nosso dever de vizinhança”, disse ao jornal Frankfurter Rundschau Philipp Ruch, líder do coletivo. “Esperamos que ele goste da vista todos os dias ao olhar pela janela”.

Höcke interpôs uma ação judicial contra o coletivo por danos pessoais e de imagem, mas perdeu em tribunal. O Tribunal Regional de Colónia deliberou, ainda em 2017, que a liberdade artística se sobrepõe aos direitos pessoais do líder fascista. Höcke foi obrigado a ver a réplica do memorial pela sua janela por pelo menos dois anos.

5) A marchar é que estás bem

Era o mesmo todos os anos e a população local já estava desesperada. Todos os anos centenas de neonazis marchavam pela cidade de Wunsiedel, na Baviera, até ao local onde está enterrado o antigo líder nazi Rudolf Hess. A campa foi retirada, contramanifestações foram organizadas, mas nada resultava.

Tudo mudou em novembro de 2014, quando a antifascista Exit-Deutschland, que se dedica à desradicalização de militantes de extrema-direita, teve a ideia de pôr os neonazis a marcharem contra si próprios. Por cada metro que os extremistas dessem na cidade, os negócios locais e residentes doavam dez euros à Exit-Deutschland.

A partir desse momento, as centenas de neonazis apenas tinham duas opções ao seu dispor: ou mantinham a marcha, doando indiretamente dinheiro à Exit-Deutschland, ou suspendiam a marcha e reconheciam a derrota. Decidiram optar pela primeira e, em vez de serem recebidos com olhares reprovadores, como nas marchas anteriores, foram recebidos com aplausos e palavras de ordem de incentivo. A Exit-Deutschland recolheu dez mil euros e a marcha não se repetiu.

6) Compraste a t-shirt errada, pá

O circuito de música de extrema-direita sempre foi um ponto de recrutamento e financiamento. Em 2011, o grupo Exit-Deutschland infiltrou-se na nona edição do festival Rock für Deutschland, organizado pelo neonazi NPD, com uma banca de t-shirts. Venderam centenas e quando os neonazis que as compraram as lavaram pela primeira vez, já em casa, uma outra imagem aparecia: “What happened to your shirt can happen to you. We can help you break with right-wing extremism” (O que aconteceu à tua t-shirt pode acontecer contigo. Podemos ajudar-te a romper com o extremismo de direita).

“Com estas t-shirts quisemo-nos dar a conhecer entre os extremistas, especialmente entre aqueles jovens que ainda não estão completamente comprometidos com a extrema-direita”, explicou à Deutsche Welle Bernd Wagner, fundador do Exit-Deutschland.

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