Economista. Licenciado e mestre em Economia na Universidade Nova de Lisboa. Doutorando em Economia Política pela tríade ISCTE, ISEG e Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Neste momento debruça-se sobre o papel das redes digitais no capitalismo contemporâneo.

As redes comunicacionais: da promessa da cooperação à desilusão

Repensar estratégias de oposição e superação do capitalismo passa por entender o papel da informação no paradigma económico e por desvendar na informação um potencial de disrupção. Se a informação é uma arma numa guerra que tem lugar entre classes, como poderão as subalternas fazer dela uso?

Ensaio
16 Agosto 2021

As redes de comunicação digitais dos nossos dias intensificam a atomização social e assumem uma centralidade crescente no circuito de valorização do capital a nível global. Longe parecem os tempos em que prometiam conduzir à cooperação entre seres humanos e à superação dos problemas com que as sociedades se deparam. Como chegámos aqui e que perspetivas se abrem para rompermos com este quadro distópico?

A circulação constante de informação ao longo das últimas décadas tornou-se possível devido a um conjunto de descobertas científicas. Aliadas à disseminação massificada de instrumentos (computadores, smartphones, etc.) que permitiram gerar, partilhar e receber informação, as redes sociais transformaram o paradigma comunicacional entre seres humanos.

A primeira ideia que poderá valer a pena desmistificar é a de que a realidade que conhecemos hoje é a única possível perante descobertas técnicas alcançadas pelo conhecimento cumulativo.

Torna-se, no entanto, necessário distinguir entre técnica e tecnologia: a primeira é composta pelas competências, saberes e instrumentos que o ser humano usa para moldar o ambiente à sua volta, enquanto a segunda corresponde à sistematização da técnica, quer no campo material enquanto modo de produção de vida, quer no campo das ideias, contribuindo para a formação da ciência.

Se a existência de novas técnicas é essencial para que ocorram transformações na forma como a humanidade manipula a sua envolvente, estas não garantem, por si só, que essas transformações ocorram. Uma determinada técnica pode, desde logo, nunca ser implementada: pode não ser economicamente rentável para quem detém o poder de a levar avante ou pode gerar demasiados anticorpos sociais tornando-a inconcebível na prática, por exemplo.

Compreender o papel que as redes comunicacionais digitais têm é particularmente importante num contexto em que assumem uma crescente centralidade na economia e em todas as interações humanas.

Em Fossil Capital (2016), Andreas Malm ilustra isto de forma contundente no seu estudo da Revolução Industrial, marcada pela adoção da máquina a vapor como fonte energética para a indústria. Embora a máquina a vapor não se revelasse à partida mais acessível ou abundante que as alternativas existentes, era menos constrangida por fatores naturais na definição das horas de trabalho e favorecia uma maior concentração de trabalhadores no espaço. Garantia assim ao patronato um maior poder de contratação e de despedimento, ou seja, um maior controlo e disciplina da força de trabalho envolvida na geração de energia.

Não terá sido nem uma inevitabilidade escrita nas estrelas nem uma racionalidade inquestionável a tornar a descoberta técnica numa tecnologia que transformou paradigmas de produção e a sociedade no seu todo. O interesse dos poderes estabelecidos foi, neste caso, determinante para o desfecho da história.

A tecnologia existente em cada momento resulta de uma complexa interação de fatores. Torna-se possível pelas descobertas técnicas, alcançadas por conhecimento acumulado ao longo dos tempos, e é moldada pelas relações sociais. Tendemos, neste sentido, a encarar a tecnologia como socialmente neutra, como reflexo da sociedade apenas e não como influenciadora dos arranjos sociais – e poderá valer a pena desmistificar também esta ideia.

Ao longo da história, as tecnologias não só foram moldadas como moldaram elas próprias a sociedade que as envolve. No caso das redes comunicacionais digitais, compreender o papel que desempenham e que podem vir a desempenhar é particularmente importante num contexto em que assumem uma crescente centralidade na economia e em todas as interações humanas. É o caso, por exemplo, de plataformas tão distintas como a Google, o Facebook, o WhatsApp, o Twitter, o Tinder ou o Instagram.

A sociedade em rede

O trabalho de Pierre Musso, nomeadamente em Critique des réseaux (2003), onde apresenta um tratado histórico sobre o conceito de rede ao longo dos séculos, é um contributo precioso para esta empreitada. Partindo da ideia de que as redes são o paradigma tecnológico da contemporaneidade, a sua obra põe em causa o preconceito de que uma sociedade construída em torno de redes – de comunicação, de transporte, de energia – é inequivocamente melhor que uma sociedade estruturada de uma outra forma. No campo da comunicação, partimos habitualmente do pressuposto de que quanto mais interações de partilha de informação houver, melhores são as escolhas tomadas e mais unida e em paz estará a humanidade.

Musso encontra o conceito de rede em pensadores como René Descartes e Gottfried Wilhelm Leibniz, que lhe deram o impulso para que se transformasse numa representação geral do mundo basilar para o pensamento contemporâneo. As redes foram alargando o seu espectro de representação e ação: do corpo à natureza que envolve a humanidade, e desta à sociedade como um todo. A importância contemporânea das redes é, para Musso, indissociável dos contributos do socialista utópico Henri de Saint‑Simon e dos seus seguidores.

Esta escola de pensamento viu as redes como a forma mais eficaz para fazer vencer o seu projeto político emancipatório. Estas redes, dos transportes à banca, permitiriam substituir o conflito, a destruição e a guerra entre humanos por uma sociedade pacificada e de comunhão em que a cooperação seria o cimento das relações interpessoais.

Para Musso, os “saint-simonianos” vulgarizaram o pensamento sobre as redes, o que teve como efeitos a sua fetichização e transformação numa espécie de objeto de culto religioso: surgiu assim uma ideologia de redes que viabiliza um “tecno-messianismo” que acaba por legitimar e potenciar transformações socialmente desagregadoras, desde que surjam sob a capa desse imaginário das redes.

De um ponto de vista político, é ainda interessante explorar a faceta abertamente tecnocrata de Saint-Simon, que defende que a administração central deve tomar as decisões fundamentais da vida em comum, substituindo-se quer à soberania de um rei quer à de um povo. Não é assim surpreendente que seja favorável a um parlamento com uma maioria de representantes da indústria, com um interesse material na concretização da passagem intermediada ao sistema social industrial que a Revolução francesa não tinha concretizado. Ou que encare o dinheiro como elemento desejável e central para levar a cabo trabalhos que procurem o interesse geral. Se a história estará bem longe de ser pré-determinada, ao contrário dos anúncios de fim da história de Francis Fukuyama, parece-me seguro dizer que a disseminação de redes não conduziu as sociedades para o socialismo que Saint-Simon tanto desejava.

A nossa compreensão de quem nos rodeia e de nós próprios é fortemente moldada pelo digital: não existe uma subjetividade que lhe seja externa, porque o digital é omnipresente nas nossas vidas.

As sociedades contemporâneas, em que as redes (de transporte, de energia, de comunicação) desempenham um papel crucial, são sociedades em que as desigualdades são profundas e nas quais a cooperação entre iguais não é mais que uma promessa distante, existente apenas em espaços dos nossos quotidianos. A suspeição de abordagens tecnocráticas para a transformação parece um bom ponto de partida para não repetirmos erros passados.

A Internet, o sistema tecnológico mais complexo da história da humanidade, permitiu intensificar as interligações entre humanos. Não apenas quantitativamente, mas também qualitativamente: as nossas formas de socialização são brutalmente influenciadas por elas, afetando inclusivamente a forma como se entende e se expressam afetividades e sexualidades. A nossa compreensão de quem nos rodeia e de nós próprios é fortemente moldada pelo digital: não existe uma subjetividade que lhe seja externa, porque o digital é omnipresente nas nossas vidas.

A forma como concebemos a própria construção política e coletiva da sociedade está bem no epicentro destas transformações. Em The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom (2011), Evgeny Morozov procura contrariar as ideias pré-estabelecidas que defendem que um maior fluxo de informação conduz a uma maior tomada de consciência individual e coletiva e, por este canal, a um aprofundamento da democracia.

Analisando acontecimentos históricos como a queda dos regimes do “socialismo real” na Europa de Leste ou a “Primavera Árabe”, o autor argumenta que é ilusória a ideia de que a intensificação da informação, respetivamente via rádio ou internet, ter sido a deflagradora das fortes mudanças políticas e sociais que se fizeram sentir.

Morozov expõe aparentes paradoxos que apontam inclusivamente na direção contrária: a intensificação da comunicação pode até incentivar a apatia social – como é o caso da República Democrática Alemã, onde as populações com mais acesso à televisão ocidental eram as que se revelavam menos insatisfeitas com o regime vigente. Hoje a Internet parece servir sobretudo como veículo de alienação num contexto em que muitos dos regimes mais autoritários optam por não a censurar. O sistema de controlo mais eficaz no mundo digital não é o que veste as roupas mais draconianas, mas aquele em que a própria censura se tornou desnecessária.

Autores tão diferentes como Musso e Morozov, a que poderíamos juntar muitos outros, sugerem que a proximidade comunicacional não é necessariamente aproximadora das pessoas entre si. O conflito associado a uma sociedade baseada na distribuição desigual dos seus frutos é, por seu lado, criador de dinâmicas de afastamento entre as pessoas. Estas análises abrem espaço para considerar que, não tendo resolvido o problema das injustiças e desigualdades sociais, criar uma proximidade comunicacional artificial não irá resolver os problemas em causa e poderá até impulsionar novos problemas.

A constatação de que plataformas digitais como o Facebook ou o WhatsApp fomentam a tendência para cada pessoa reforçar as suas opiniões pré-estabelecidas, funcionando como caixa de ressonância do que já pensávamos, em vez de se abrir ao diálogo com outros pontos de vista, é representativa desta dificuldade.

Em suma, esperar que em sociedades atomizadas a disponibilidade para se sair dos círculos particulares seja a priori grande é uma esperança ilusória. Além disso, o próprio modo como as plataformas estão estruturadas cria as condições para expressar e amplificar esta atomização: formas sociais enraizadas e tecnologias combinam‑se para se reforçarem mutuamente.

As redes comunicacionais no contexto macro

No momento histórico que vivemos, as redes de informação não têm relevância apenas ao nível de como operam as subjetividades por via da comunicação direta entre pessoas, mas também na organização económica mundial.

Ao longo do último século, a influência do setor industrial como força motriz da explicação dos avanços e recuos económicos foi perdendo fulgor perante a consolidação de um capital financeiro a que a produção agrária e a produção industrial se submetem, como explorado nas leituras marxistas sobre o imperialismo e o capitalismo monopolista que lhe corresponde como organização económica. Significa isto que, mantendo‑se a produção alicerçada na criação de valor pela exploração do trabalho, a captura desse mesmo valor acontece cada vez mais noutros lados: pelos bancos em detrimento das empresas industriais, pelos impérios em detrimento das colónias, e por aí em diante.

Nos dias de hoje, também a informação desempenha um papel essencial na concretização do valor, isto é, na garantia de um dado valor potencial criado poder ser efetivamente vendido e, desta forma, gerar lucros. Se fará pouco sentido levar demasiado adiante a comparação entre bancos e as grandes tecnológicas que fazem da informação o centro da sua atividade, em ambos os casos dificilmente se concebe a sua ausência nas economias contemporâneas. Maurizio Lazzarato, em Le Capital déteste tout le monde: Fascisme ou Révolution (2019), sustenta precisamente a ideia de as tecnologias de informação são instrumentos mobilizados na “guerra” do capital contra os oprimidos.

Recusando a conceção de a guerra ser um anacronismo ou um momento excecional na história do capitalismo, Lazzarato defende que a guerra faz parte do seu código genético, que não podemos compreender a capacidade produtiva do sistema em que vivemos sem dar conta da sua necessidade destrutiva.

Assim, é perfeitamente conciliável identificar que, na segunda metade do século XX, por exemplo, coexistiram formas de exercício do poder relativamente relaxadas nalgumas zonas do globo com formas extremamente agressivas noutras. Enquanto nos países do “Norte global” se promoveu sobretudo uma “governação dócil dos corpos” que pretendeu alinhá-los com os interesses económicos dominantes, como sugere Michel Foucault, no “Sul global” adotou-se uma política agressiva e sanguinária de ataque a movimentos emancipatórios, como expresso no assassinato de figuras como Thomas Sankara ou Salvador Allende.

A sucessão de momentos de maior agressividade nesta guerra por outros de menor intensidade, marcados por uma postura de maior “cooperação”, responde aos diferentes contextos em que os combates políticos se desenrolam, nos quais as relações de forças se vão modificando.

Sendo a informação um dos ingredientes-chave no circuito de valorização do capital, não específica a este ou àquele setor de atividade mas de forma generalizada, uma quebra no fluxo de informação poderá significar uma rutura com a produção de valor existente - da mesma forma que uma greve gera logo no âmago da produção a impossibilidade de gerar valor e, assim, lucro. Repensar estratégias de oposição e superação do capitalismo passa, também, por entender o papel da informação no paradigma económico e por procurar desvendar na informação um potencial de disrupção. Se a informação é uma arma numa guerra que tem lugar entre classes, como poderão as subalternas fazer dela uso?

Um futuro para lá destas redes de comunicação

As redes são formas de construir sociedades que estão bem longe ser inevitabilidades tecnológicas e socialmente neutras. Também as redes comunicacionais o são: vivemos rodeados por redes que servem propósitos de geração e partilha de informação para dar vida ao circuito de valorização do capital. Redes que nos moldam de formas profundas, inclusivamente à maneira como interagimos com quem nos rodeia e como nos concebemos a nós próprios. Se a hiperconetividade nos foi prometida como terra de paz, partilha e fruição, é hoje, sobretudo, um terreno de rancor e disfunção social. 

A hipótese de “sair” das redes poderá fazer sentido a nível individual, mas não soluciona o problema estrutural: o papel da informação na economia contemporânea e na perpetuação de laços comunitários frágeis. Por isso, mais do que uma crítica moral, é necessário um pensamento estratégico sobre a superação deste estado de coisas.

“Sair” das redes pode fazer sentido a nível individual, mas não soluciona o problema estrutural: o papel da informação na economia contemporânea e na perpetuação de laços comunitários frágeis.

A reflexão torna-se mais complexa quando constatamos que o problema destas redes comunicacionais não é apenas de distribuição de poder, mas da sua própria natureza, ao incitar a atomização e afastar uma real cooperação humana. Mesmo que fosse fortemente regulada, a forma como são apropriados os resultados económicos destas empresas, até mesmo sob a forma de nacionalização e de distribuição igualitária, mantendo a sua lógica de funcionamento intacta, persistiriam as formas de interação social excludentes e desagregadoras que caraterizam o seu funcionamento.

É, portanto, insuficiente por si só uma nacionalização destes gigantes tecnológicos: uma apropriação coletiva das formas de comunicação implica a profanação da própria estrutura dos canais comunicativos que hoje conhecemos. Não pondo de lado as descobertas técnicas que nos permitem trocar informações de formas que quebram as distâncias físicas, é preciso começar a desvendar usos radicalmente diferentes para elas.

José Luís Garcia, na introdução a Pierre Musso and the Network Society From Saint-Simonianism to the Internet (2016), argumenta que a utopia tecnológica prevalecente ocupa todo o espectro de imaginação utópica que criamos. Apercebermo-nos disso será um primeiro passo essencial para criarmos outras utopias, de que tanto precisamos para criarmos outras formas de viver em comum. E se não sei, por agora, lançar muito mais pistas do que as que aqui estão, estou certo que a criação de projetos informativos alternativos e independentes do poder económico – como este onde escrevo – abrirão caminhos para o que está por vir.