Jornalista da Grande Reportagem da SIC e professor auxiliar na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Autor de várias investigações jornalísticas e vencedor de dois Prémio Gazeta de Televisão, em 2014 e 2017. 

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Os desafios do jornalismo de investigação: a responsabilidade do jornalista

O jornalismo de investigação está a perder a capacidade de resistência em Portugal. Ultrapassámos o tempo da competição. O jornalismo português precisa, urgentemente, de um consórcio nacional de jornalistas de investigação.

Ensaio
13 Julho 2021

Persistência, paciência, disposição para o sacrifício, determinação e coragem são as características do jornalista de investigação.  Sem elas, todas as potenciais grandes histórias colapsam, despontando, travestidas de investigação, meras centelhas do que poderiam ter sido.  

A grande história de investigação jornalística depende, sempre, da capacidade de resistência do jornalista às pressões internas (impostas pela organização onde trabalha) e externas (impostas pelos interesses que a divulgação da história compromete). 

A investigação jornalística desoculta interesses poderosos, encobertos pelas espessas camadas do tempo e do conformismo. E o jornalista de investigação, qual arqueólogo do detalhe, limpa, com esmero e profundidade, cada uma dessas camadas espessas de névoa. 

Quando Érick Neveu nos diz que o jornalismo de investigação “é fortemente elogiado, mas insuficientemente praticado”, o académico francês limita-se a constatar que a maioria das histórias jornalísticas não atingem o alvo, porque os seus autores sucumbiram às pressões: faltou-lhes a determinação, a persistência, a paciência, a disposição para o sacrifício, a coragem ou, tão simples quanto real, deixaram-se contaminar pelo vírus da preguiça.   

É fácil e cómodo justificarmos o silenciamento da investigação jornalística apontando, apenas, para o mercado. Claro que um mercado frágil, a viver de compromissos, foge de histórias que ameacem prejudicar interesses que lhe sejam próximos. Um mercado frágil foge dos processos judiciais que a investigação jornalística suscita. Um mercado frágil receia que os anunciantes quebrem contratos, por se sentirem prejudicados com os ecos da investigação. Um mercado frágil, como nos alerta Paul Starr, mais facilmente cede na ética e nos valores do jornalismo. Tudo isto é verdade e tudo isto contribui para afastar a investigação jornalística da cobertura informativa quotidiana. Mas, estando consciente disso, é contra essa rota já traçada, que o jornalista tem de lutar.

David Randall e Dean Starkman ajudam-nos a perceber a relevância do papel do jornalista na construção de cada história. É dele a primeira decisão de travar ou de acelerar; afinal, como afirma Randall, “a investigação começa no ponto em que a ação quotidiana para”. É certo que o jornalista pode parar porque a organização para a qual trabalha lhe exigiu que o fizesse. Mas se do lugar da notícia trouxer a centelha de dúvida que alimenta a curiosidade, o jornalista volta, não distende, não esquece, porque, conclui Randall, “o jornalismo de investigação não aceita o segredo nem a recusa das fontes oficiais”.

Dean Starkman nota que “o cão de guarda deixa de ladrar” sempre que o jornalista fala com as elites, em vez de falar com os dissidentes, sempre que transmite visões ortodoxas, em vez de heterodoxas, sempre que evita o confronto, receando fazer inimigos, sempre que se afirma porta-voz de interesses poderosos, em vez de nos dizer o que fazem, e como o fazem, os poderosos.

Se há jornalistas precários, ou conformados, que, num mercado à mingua, se sentem compelidos a seguir, sem pestanejarem, as determinações de chefias intermédias, que se limitam a gerir o tempo e a cumprir o cronograma - inscrito no Excel desenhado pelas direções - outros há, igualmente precários, mas inconformados, que não se vergam à condição, questionando, duvidando e, sobretudo, ultrapassando, com firmeza e engenho, os constrangimentos quotidianos.

Quem, pela primeira vez, se vergar, toda a vida caminhará de espinha dorsal bamba, moldável como barro e elástica como borracha. 

John Pilger e Martha Gelhorn apresentam-nos a principal característica do jornalista de investigação. Se todas as outras que aqui apresentámos são relevantes, esta supera-as, porque transporta a melhor parcela de todas elas.

A subversão

A subversão exige uma boa dose de coragem, exige sacrifício, determinação, persistência, paciência e, sobretudo, capacidade de resistência. Pilger aclama esse lado subversivo do jornalista, que se afirma sempre que se bate contra “o aparato de propaganda” que os interesses poderosos criam para ocultar a verdade que potencialmente os destruiria. Quando os jornalistas aceitam ser “meros porta-vozes dos porta-vozes”, colocando, com a matéria jornalística que produzem, novas camadas sobre o oculto, rendem-se, tornam-se submissos.

O jornalista subversivo, alimentado pela curiosidade, duvida até ao fundo das questões, cultivando aquilo que Bill Kovach e Tom Rosenstiel classificam como “conhecimento cético”, atitude que lhes permite atingir “um elevado grau de verificação”. Se a prova produzida for à prova de bala, o jornalismo resiste e o jornalista coloca novo tijolo no edifício de credibilidade que o sustenta.

O jornalista subversivo, todavia, navega contra a corrente. Quando todos estão na margem, amparados pelos poderes que protegem, o jornalista subversivo aguenta, solitário, o mar revolto.

A russa Anna Politovskaya e a maltesa Daphne Caruana Galizia, duas jornalistas de investigação assassinadas a mando dos poderes que ambas desocultavam, foram duas jornalistas subversivas. Politovskaya chamava aos inúmeros colegas que se rendiam “servos” de Putin, “palhaços” - “cuja função é manter o público entretido” - “pouco preocupados com a transformação do jornalismo em propaganda”. Caruana Galizia era a “voz dissidente” que descrevia Malta como “um país primitivo que vivia nas sombras da idade média”.

A democracia exige, desde logo, que o jornalista subversivo não pague com a morte a coragem de denunciar. Uma democracia madura deveria acolher, proteger e acarinhar os jornalistas que colocam todas as energias, usando todas as ferramentas ao seu alcance, na desocultação da verdade.

Não falemos da morte, porque essa, no campo jornalístico, é território do insólito e do absurdo, mas, para o jornalista, a subversão tem sempre um preço elevado.   

Martha Gellhorn resistiu quase 90 anos: morreu praticamente cega aos 89. Na cobertura de 50 anos de guerras, o espírito subversivo custou-lhe a censura dos media norte-americanos. Os artigos que escreveu no calor da guerra do Vietnam foram publicados no britânico The Guardian, mas rejeitados nos jornais do seu país. Na introdução do último livro de reportagens, publicado em 1986, Gellhorn, agastada com a censura, mantinha incólume o seu âmago subversivo: "Em 1966, a versão oficial americana da guerra era aceite como verdadeira. As opiniões diferentes eram propaganda comunista e, como tal, rejeitadas". Nunca foi porta-voz do poder nem de interesses obscuros. Martha Gellhorn nunca se rendeu.

O jornalista subversivo deixa-se controlar pela história jornalística, que inteiramente o domina e absolutamente o condiciona. Toda a pressão lhe cai inteira em cima dos ombros: a pressão do tempo, a pressão da prova, a pressão da organização para a qual trabalha, a pressão das fontes e, sobretudo, a pressão dos interesses poderosos que, tantas vezes, consegue silenciar histórias.

A maior parte de nós vive sozinho a complexidade das histórias. Mesmo que desabafe, partilhe pedaços do todo com camaradas de ofício, o todo é um polvo cujos tentáculos o aprisionam.

Colaborar é resistir

A complexidade das grandes histórias jornalísticas, muitas com ramificações internacionais, essas e outras com grandes pacotes de informação por filtrar, a exigirem, quase todas, competências complementares ao jornalismo – análise e tratamento de dados, proximidade relativamente aos diversos lugares da notícia, conhecimentos específicos sobre realidades distintas – essa complexidade impede o jornalista de investigação de alcançar sozinho o objetivo de desocultar a verdade.

O jornalismo colaborativo torna viáveis histórias inalcançáveis para o jornalista solitário.

Na base da formação dos consórcios colaborativos está, todavia, o jornalista diferente dos demais: que resiste, que se reergue a cada fracasso, que vê para lá do óbvio, recusando a visão oficial; o jornalista subversivo que, em todas as etapas da investigação, escrutina, duvida, detalha. Em conjunto, colaborando e não competindo, esses jornalistas conseguem a escala, e a massa crítica, que torna cada história inevitável.

Nas geografias onde a liberdade de expressão é delito a valer prisão, perseguição, morte, a colaboração transnacional encontra a fuga que liberta a história. Nos mercados frágeis, onde poderosos interesses particulares conseguem silenciar investigações, a colaboração entre jornalistas locais, de diversas plataformas, dá à história a escala que ela precisa para se tornar inevitável.

Em Portugal, o jornalismo de investigação está a perder a capacidade de resistência. É, cada vez mais, um fenómeno ocasional, associado a um grupo restrito de jornalistas que, com a cumplicidade de raríssimas chefias, vão conseguindo o tempo necessário para o milagre da investigação.

Mas esta raridade não pode ser a solução. 

O jornalismo português precisa, urgentemente, de um consórcio nacional de jornalistas de investigação.

Jornalistas de investigação de diversas plataformas, professores de jornalismo de investigação, estudantes de jornalismo que frequentem seminários de investigação jornalística, especialistas em cada uma das áreas objeto de investigação devem unir-se num consórcio em defesa do jornalismo de investigação.

Ultrapassámos o tempo da competição. Em nome do futuro do jornalismo de investigação, abracemos a inevitabilidade da colaboração.