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Imagem capa crónica Gisela Casimiro

Faltam ainda cores ao arco-íris

É fundamental para a luta que grupos minoritários sejam solidários e inclusivos entre si. É fundamental que não lutem entre si e que a inclusão, se a houver, não seja predatória. A inclusão não é um favor como a colaboração não é senão uma obrigação.

12 Julho 2021

Pude, recentemente, assistir a uma conversa online (promovida pelo Canal de Antropologia do CRIA) entre o antropólogo Miguel Vale de Almeida e Puta da Silva, uma artista e ativista trans, brasileira e imigrante, fundadora da Casa T.

A Casa T é um abrigo em Lisboa que promove a independência e a autonomia de pessoas LGBTQIA+. Criada em Agosto de 2020, permitiu a pessoas trans/imigrantes/racializadas alguma segurança e proteção da crise habitacional e pandémica, embora ainda esteja muito - arriscaria dizer tudo - por fazer.

Considerando que muitas destas pessoas são artistas, a Casa T é inevitavelmente também um polo cultural e, como tal, garantir que tem condições para funcionar é garantir que se cria, preserva e promove cultura. Uma cultura válida e merecedora de apoios estatais e outros. Os últimos dois anos foram marcados pelo medo mas também por não ser uma opção não agir. Foi o que levou as pessoas às ruas como nunca antes: combater pandemias que delas queriam fazer um vírus. Pandemias essas o racismo, a xenofobia, a homofobia, a transfobia e a misoginia.

Quando todas elas se juntam e são direcionadas a alguém transvestigenere, e/ ou imigrante e/ ou racializada, falamos em várias camadas de discriminação que pesam financeira, física, mental e emocionalmente a quem a elas conseguir sobreviver.

Assim sucedeu com a Casa T, excluída da Marcha do Orgulho Gay este ano. Ainda que a Marcha não se tenha realizado da forma pretendida e habitual, e que a população tenha saído à rua por si mesma, é fundamental para a luta que grupos minoritários sejam solidários e inclusivos entre si. É fundamental que não lutem entre si e que a inclusão, se a houver, não seja predatória. A inclusão não é um favor como a colaboração não é senão uma obrigação.

Falar de Direitos Humanos como o são os Direitos LGBTQIA+ sem considerar quem tem, dentro desse grupo, uma posição social e racial que acarreta menos oportunidades e maior mortalidade é oprimir o oprimido, é repetir uma lógica colonizadora, capitalista e classista.

Como se pode ler na Nota de Escurecimento publicada no Instagram da Casa T: “Precisamos partir do princípio que a Casa T nunca foi questionada se queria fazer parte desta organização. Mas o efeito colateral é novamente silenciar a população imigrante racializada e falar por ela. Somos muito bem aceitas em um lugar lúdico. Cantando, dançando e batucando. Mas se estamos nas áreas da intelectualidade, da produção de conhecimento, somos questionadas e validadas ou invalidadas por pessoas cisgéneras e brancas.” Diz a expressão ninguém quer saber se você não for na festinha.

Ser-se excluído daquela que é A Festa por quem está, supostamente, do mesmo lado, é ficar com ainda menos do pouco que já se tinha. Há alguns meses, no TBA e a partir do projecto CURADURA da Associação Parasita, do qual fiz parte e onde pude conhecer melhor Puta da Silva, aprendi com ela o que de inesperadamente positivo a pandemia trouxe a corpas negras e não-normativas: a possibilidade da luz do dia, o andar livremente pela cidade e de forma segura, inclusive o gravar de um videoclip na Rosa dos Ventos do Padrão dos Descobrimentos, agora ironicamente mais uma vez vedada para nova ação de restauro.

No site do Padrão dos Descobrimentos podemos ler sobre este património de todos, sobre o desgaste que sofre diariamente por não ser usado apenas como foi pensado, ou seja, para acesso pedonal, mas por ser pisado por patins, skates, bicicletas, trotinetes e outros. Não deixa de ser curioso como seres humanos foram feitos para viver e celebrar a vida, não só no mês de Junho mas em todos os dias e noites da sua existência. No entanto, os desgastes causados por agressões e invisibilização não o permitem.

A festa só importa para quem usufrui dela, e usufruir dela não é servir antes, durante e depois sem poder participatório. Mesmo o direito à não-participação é válido. Mas é preciso que participar tenha sido uma escolha real, em primeiro lugar e não uma imposição de um sistema sufocante. Do mesmo modo que a neutralidade é um consentimento silencioso e perigoso. Durante a conversa, intitulada “Queer Aqui: Confronting Afro Travesti Diaspora”, Miguel Vale de Almeida, do seu lugar de privilégio, deu algumas indicações sobre a responsabilidade desse mesmo lugar: “dar a ver, dar voz e fazer com que a sua voz seja válida”, no que designou por “um trabalhinho de aliado muito pequenino que nunca é feito de uma verdadeira experiência como a das pessoas que estão nessa situação”. O que mais me marcou da conversa entre Puta da Silva e Miguel Vale de Almeida foi a sua resposta ao dar voz e visibilidade, que aqui transcrevo, pois ninguém o diria melhor do que ela.

"Não somos nós que temos de entrar nesses espaços para sermos enfermeiras sociais. Não dá para ficar num discurso de suposição ou de Estou a mover-me dentro das minhas possibilidades. Isso [ajudar] é dar casa, trabalho, entender quem tem comida no frigorífico. Entender que a distribuição alimentar em Lisboa tem muito dinheiro envolvido, mas que muitas pessoas passam fome pois não se conseguem deslocar até a estes pontos.

Aqui em Portugal trabalhei com crianças africanas e ciganas, infelizmente não tive oportunidade de trabalhar com mais crianças ainda, mas aprendi muito com elas. Acredito na juventude e nas crianças e que, se conseguirmos intervir de algum modo na escola básica, estaremos a intervir no intelecto português.

É muito bom estar aqui a falar sobre o assunto, mas é algo que mexe com a gente. Se fossemos olhar politicamente, eu não deveria realmente estar aqui e sim a curtir a minha vida em paz. A palavra visibilidade é muito forte para mim, mas a nossa corrida não é pela mera visibilização, pois sem dinheiro, suporte e estrutura, a gente se expor só vai potencializar os nossos processos de morte, vai-nos colocar em risco. O discurso por si só não move nada, não move a vida.

O papel de quem quer ajudar tem de ser dar vida e dinheiro. Deixar-nos entrar, acessar e não nos colocar em risco, tomar ações. Eu estou cansada, muitas manas estão cansadas. Eu devia estar num belo restaurante curtindo a minha vida em paz e não falando de política pública. Mas a gente não vai descansar enquanto não vir uma cidade minimamente acessível. Eu sou daqui. Tudo isso é meu, porque tudo isso aqui que construiu esse império, saiu da minha terra. Por isso me sinto no lugar de falar, porque eu estou em casa."

Talvez faltem ainda cores ao arco-íris. Mas onde quer que ele termine, Puta da Silva estará sambando. Que nunca deixe de se sentir em casa, esteja onde estiver. Onde ela estiver, é aí o lugar de fala e de festa.

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