Investigador da Universidade de Lisboa que está a trabalhar no projeto POPULUS: Rethinking Populism. É autor do blogue Populism Observer

Investigadora do projeto ERC MAPLE da Universidade de Lisboa. Dedica-se a estudar atitudes políticas e comportamento eleitoral.

Quem vota na extrema-direita? O eleitorado do Chega e do Vox

Não era suposto os fantasmas fascistas ressurgirem para assombrar a democracia. Os eleitores do Chega e do Vox são preferencialmente homens jovens, bastante religiosos, com um baixo nível de escolaridade. Não são economicamente mais vulneráveis que os outros eleitores nem velhos nostálgicos. São uma nova geração atraída pela extrema-direita.

Ensaio
13 Setembro 2021

Não era suposto os partidos populistas de direita radical terem sucesso em Espanha e em Portugal. Ou pelo menos era esta a narrativa oficial. A razão por trás do chamado “excecionalismo ibérico” era simples: os regimes autoritários de Francisco Franco e António de Oliveira Salazar criaram um estigma tão forte em relação a determinadas ideias políticas que os partidos associados ao passado sombrio não poderiam ser bem-sucedidos.

Portugal e Espanha estavam saturados de ditadores autoritários e os partidos reminiscentes desse passado negro não eram bem-vindos no presente democrático. O ideal em ambos os lados da península era claro: "Fascismo nunca mais", "¡No pasarán!".

Ao longo das últimas quatro décadas, Espanha e Portugal foram casos excecionais, enquanto noutros países europeus diferentes partidos populistas radicais conquistaram representação. Não apenas em parlamentos regionais e nacionais, mas nalguns casos – como em Itália, Áustria, Hungria e Polónia – conseguiram mesmo chegar ao poder. Após as eleições de 2019, e seguindo a mesma tendência, cerca de 20% dos assentos do Parlamento Europeu passaram a ser ocupados por partidos populistas radicais de direita.

Nenhum país é imune à extrema-direita. Até na Alemanha a AfD se tornou a terceira força política mais votada nas legislativas federais de 2017. 

Nada disto aconteceu em Espanha e em Portugal desde o fim das respetivas ditaduras em meados dos anos 1970: os seus fantasmas fascistas foram enterrados bem fundo e não era suposto ressurgirem para assombrar a democracia. Partidos ligados ao passado autoritário foram estigmatizados e considerou-se que não possuíam as credenciais democráticas necessárias.

Em Espanha, o Democracia Nacional, o España 2000, o Forza Nueva e o Alternativa Española nunca conseguiram conquistar representação a nível nacional. Em Portugal, o Partido Nacional Renovador (PNR), agora Ergue-te, participou nas últimas duas décadas em eleições a nível nacional sem conseguir eleger um único representante para a Assembleia da República.

Então, em 2019, algo aconteceu, e a história do excecionalismo ibérico chegou ao fim. O Vox tornou-se o terceiro partido mais votado em Espanha, conquistando 28 deputados e 15,1% dos votos, enquanto o Chega foi o primeiro partido radical de direita a obter assento no parlamento português, com 1,3% de votos.

Vox e Chega são dois partidos que podem ser classificados como populistas radicais de direita: defendem posições anti-imigração e combatem o feminismo, propõem medidas defensoras da lei e da ordem e criticam o sistema, enquanto alegam representar a vontade popular.

Resumindo, a sua ideologia compartilha diversos elementos com os regimes autoritários de Franco e Salazar, acrescentando um elemento moderno de retórica populista, ao dividir a sociedade entre pessoas honestas e elites corruptas.

No futuro poderão perder apoio e revelarem-se apenas como fenómeno passageiro, mas, por enquanto, o seu crescimento mantém-se. Atualmente, o Vox é um parceiro credível na formação de governos a nível local, incluindo na capital Madrid, enquanto o líder do Chega alcançou o terceiro lugar nas eleições presidenciais de 2021, com quase 12% dos votos. Conseguiu-o depois de ter apoiado uma coligação de direita no Governo Regional dos Açores que pôs fim a 24 anos de governação socialista.

Isto não deveria ser surpreendente, uma vez que nenhum país é imune à extrema-direita. Mesmo na Alemanha, país onde a memória da II Guerra Mundial e do passado nazi criou um enorme estigma, um partido de extrema-direita como a Alternativa para a Alemanha (AfD) tornou-se a terceira força política mais votada nas legislativas federais de 2017.

Contudo, este súbito crescimento eleitoral do Vox e do Chega coloca várias questões. Quem são os cidadãos que decidiram votar em ambos os partidos? Será que correspondem ao perfil clássico dos eleitores que já conhecemos de outros países ou são diferentes? E o mais importante: porquê agora?

O eleitorado da direita radical em Espanha e em Portugal

Tentámos responder a estas questões na nossa investigação A new Iberian exceptionalism? Comparing the populist radical right electorate in Portugal and Spain (Um novo excecionalismo ibérico? Comparando o eleitorado de direita radical em Portugal e Espanha). O que aqui apresentamos são as conclusões de dois estudos que se encontram ainda sob revisão. Em primeiro lugar, quisemos compreender o porquê de, após mais de 40 anos, os partidos populistas de direita radical terem um súbito crescimento nos dois países ibéricos.

A resposta reside nos diferentes caminhos em direção à democracia: em Portugal, a revolução criou condições desfavoráveis para a emergência de partidos populistas de direita radical, enquanto o pacto de silêncio espanhol tornou o país vizinho mais vulnerável.

Em Portugal, graças aos efeitos da Revolução dos Cravos, o sistema partidário pós-ditadura está fundamentado no antifascismo e o sistema político é o resultado de uma clara rutura com o passado. Além disso, mesmo que os cidadãos não confiem nos partidos tradicionais e os considerem incompetentes ou corruptos, preferem a abstenção ao voto em novos partidos políticos.

Um voto num partido da direita radical populista significa, com frequência, uma expressão de desconfiança e protesto em relação à elite política.

Por fim, em Portugal questões culturais como a imigração ou o feminismo têm menos importância do que problemas socioeconómicos, como o nível de vida ou o desemprego, resultando numa maior dificuldade em conseguir votos para os partidos populistas radicais de direita.

Em Espanha a situação é muito diferente, porque a democracia se encontra estabelecida num pacto de silêncio (designado como pacto del olvido) baseado numa amnésia coletiva: o passado teve que ser esquecido, na esperança de evitar as divisões que causaram a Guerra Civil (1936-1939) e o regime de Franco (1939-1975). Daqui resultaram três efeitos opostos, em comparação com Portugal.

Primeiro, o sistema partidário democrático espanhol apresenta muitos elementos em comum com o regime anterior, e uma formação política tradicional como o Partido Popular (PP) tem as suas raízes em elementos do franquismo, algo impossível na direita tradicional do Portugal pós-revolucionário.

Em segundo lugar, se os eleitores consideram que os partidos existentes são incompetentes ou corruptos, votam em novas formações como o Podemos, o Ciudadanos ou o Vox. Por último, o PP foi considerado demasiado moderado no combate às aspirações independentistas da Catalunha, tendo o Vox conseguido, com sucesso, apresentar-se como o único guardião da unidade nacional.

Depois de estabelecermos que as condições são mais favoráveis para partidos populistas de direita radical em Espanha do que em Portugal, tentámos perceber quem vota no Vox e no Chega. A utilização de dados de investigação online por nós recolhidos em 2019, quando tanto Portugal como Espanha passaram por eleições legislativas (Espanha em abril e Portugal em outubro), permite-nos analisar aquilo que motiva as pessoas a votar nestes dois partidos, ao invés de escolher outra formação política. Com base num método estatístico de análise de regressão, determinámos quais os fatores específicos que aumentam a probabilidade de os entrevistados votarem no Chega ou no Vox de uma forma estatisticamente significativa.

Estudos prévios em diferentes países sugerem que os cidadãos que votam em partidos como o Chega e o Vox – assim chamados partidos populistas de direita radical (PDR) – partilham algumas características que os distinguem dos outros eleitores. Por exemplo, os seus votantes e apoiantes de partidos são tendencialmente do sexo masculino, jovens, religiosos, habitantes de áreas mais rurais que urbanas e com um baixo nível de escolaridade.

Com efeito, encontramos a maioria destas características nos eleitores do Chega e do Vox: são preferencialmente homens jovens, bastante religiosos, com um baixo nível de escolaridade. A idade é particularmente interessante, porque confirma que não são velhos nostálgicos do regime autoritário, mas sim uma nova geração atraída pela extrema-direita. Os votantes do Chega também vivem nas zonas mais rurais do país, o que não acontece com os eleitores do Vox.

Além disso, os apoiantes dos partidos populistas de direita radical estão frequentemente insatisfeitos com o modo de funcionamento da democracia, rejeitam os partidos tradicionais e encontram-se, em geral, desiludidos com o sistema partidário e o regime político. Um voto num partido da direita radical populista significa, com frequência, uma expressão de desconfiança e protesto em relação à elite política.

Partidos recentes como o Vox e o Chega tendem a ser especialmente bem-sucedidos na sua pretensão de se apresentarem como menos corruptos que os partidos já existentes, atraindo assim eleitores descontentes com a promessa de uma regeneração democrática.

O Chega é o único partido que propõe abertamente a privatização do sistema de saúde público e a restrição de medidas sociais de apoio à população.

Também encontramos evidências para esta hipótese ao olharmos para os nossos dados: mostram que o descontentamento em relação à democracia e ao atual governo (socialista) reforça fortemente a probabilidade de votação no Vox e no Chega. Curiosamente, no entanto, os eleitores do Vox estão satisfeitos com o trabalho do anterior governo comandado pelo Partido Popular (PP), dando a entender que muitos dos seus ex-eleitores são agora simpatizantes do Vox. Isto sugere que os eleitores do partido da extrema-direita espanhola, uma vez convictos de que o PP estará determinado a limitar a autonomia da Catalunha, poderão voltar a apoiá-lo.

Em seguida, analisámos uma hipótese difundida pela literatura dedicada aos partidos populistas de direita radical que defende que os eleitores destes partidos são, supostamente, os ‘derrotados da globalização’. O que significa isto exatamente?

A ideia por detrás desta suposição baseia-se na premissa de que a globalização originou um novo conflito político que opõe os que dela beneficiam àqueles cujas oportunidades laborais diminuíram num mercado de trabalho complexo e global. Estes últimos são, especialmente, trabalhadores pouco qualificados ou ligados à manufatura que se encontram cada vez mais vulneráveis economicamente.

Este eleitorado sente-se vulnerável e empobrecido, o que, por sua vez, cria um tipo de ressentimento que era tradicionalmente canalizado para os partidos de esquerda-radical, mas que tem vindo a ser crescentemente explorado pelos partidos PDR.

Além da motivação económica, os ‘derrotados da globalização’ opõem-se ainda a mudanças sociais como o multiculturalismo, o cosmopolitismo e o feminismo, por eles encarados como ameaças. Com efeito, posições contra a imigração, assim como a deslegitimação e ridicularização do feminismo, são frequentemente elementos-chave na ideologia PDR. Permite-lhes oporem-se às “elites progressistas” e identificarem um alegado inimigo que ameaça os valores tradicionais.

Se analisarmos os apoiantes de Vox e do Chega por este prisma, não podemos confirmar que são derrotados económicos da globalização: não são economicamente mais vulneráveis do que outros eleitores. Pelo contrário, os simpatizantes do Vox tendem a usufruir de melhores salários e mais posses do que os eleitores de outros partidos.

No entanto, encontramos vastas evidências de que, tanto os apoiantes do Vox como os do Chega, se veem a si próprios como perdedores da globalização cultural: o voto em ambos os partidos é impulsionado por sentimentos antiglobalização e anti-imigração, com este último a ter um efeito especialmente forte. Além disso, a oposição ao feminismo também provoca um aumento da probabilidade de voto no Vox, embora menos significativo no caso do Chega.

Os tablóides e os media baseados no entretenimento são mais populares entre os apoiantes dos partidos da direita radical populista.

Outro fator que investigámos foi a “dieta de media” dos apoiantes de Vox e do Chega. Ou seja, de que tipo de meios de comunicação obtêm informação sobre política? Ao longo dos últimos anos tornou-se cada vez mais óbvio que as fontes de informação “alternativas” e as redes sociais, em especial o Facebook, são extremamente adequadas à propagação de mensagens populistas de direita radical.

Quando se trata de meios de comunicação tradicionais, uma conclusão comum é que os tablóides e os media baseados no entretenimento são mais populares entre os apoiantes dos partidos da direita radical populista. De facto, notámos que os eleitores do Vox e do Chega tendem a utilizar o Facebook e (no caso do Vox) fóruns da Internet como fontes de informação política, sendo também mais provável que leiam tablóides (Correio da Manhã e ABC) em vez dos jornais convencionais.

Por fim, os eleitores que lêem tablóides são mais prováveis de serem eleitores do Vox e do Chega. Considerando que Ventura tem um passado como comentador de futebol na Correio da Manhã TV (CMTV), não surpreende que aqueles que leem o Correio da Manhã à procura de informação política tenham mais probabilidades de votar no seu partido.

Em Espanha, o problema da Catalunha é altamente relevante: depois de ter estado “congelado” durante o regime de Franco, reacendeu-se em anos mais recentes, culminando no referendo sobre a independência da Catalunha em 2017 e a consequente crise institucional.

Isto foi explorado pelo Vox, cujos valores nucleares incluem o nacionalismo espanhol, a unidade territorial e a repressão sistemática de movimentos pró-independência. De facto, consideramos que em Espanha a rejeição da autonomia catalã e o apoio a um Estado centralizado aumentam fortemente a probabilidade de votação no Vox. Por último, quisemos perceber como uma questão específica de cada um dos países pode determinar o voto no Vox e no Chega.

Em Portugal, a questão mais saliente é a do Estado Social, uma vez que a crise financeira iniciada em 2007 não criou preocupações específicas relativas à imigração ou ao terrorismo, como aconteceu noutros países europeus, mas sim inquietações relacionadas com o desemprego, a situação económica, as reformas e a dívida pública.

Neste contexto, o Chega é o único partido que propõe abertamente a privatização do sistema de saúde público e a restrição de medidas sociais de apoio à população portuguesa. Este assunto também afeta claramente os eleitores. Partindo dos nossos dados, podemos ver que o apoio a um sistema de saúde privatizado e à redução de serviços públicos aumenta a probabilidade do voto no Chega, embora em menor grau do que a questão catalã em Espanha.

O fim do excecionalismo ibérico?

Que implicações têm estas conclusões para o futuro dos cenários políticos em Portugal e em Espanha? Os partidos populistas de direita radical como Vox e Chega estão aqui para ficar?

Por um lado, o facto de os eleitorados de Vox e do Chega seguirem padrões amplamente alinhados com as previsões da literatura dedicada aos partidos da direita radical populista aponta para a hipótese de que ambos os países ibéricos seguirem o caminho de muitos outros países europeus, onde estes partidos se tornaram parte integrante da paisagem política. Vê-los em governos a nível nacional num futuro não muito distante é tudo menos impossível.

Por outro lado, a nossa investigação também destaca a importância das questões específicas de cada país no desempenho eleitoral dos dois partidos: contrariamente ao Vox, o Chega não conseguiu (ainda?) explorar uma questão altamente relevante e polarizada, como é a da unidade nacional em Espanha. Permanece, portanto, eleitoralmente mais fraco.

Assim sendo, apesar de o excecionalismo ibérico ter terminado, estas formações partidárias ainda poderão fracassar na sua implantação por razões muito “ibéricas”. Os eleitores do Vox poderão optar por apoiar o tradicional PP, caso este adote uma posição mais firme em relação à Catalunha, enquanto o Chega só conseguirá prosperar se o debate público se centrar em questões culturais relevantes, ao invés de questões socioeconómicas, como acontece no resto do continente.

Neste contexto, outros elementos irão ser de extrema importância. Em primeiro lugar, a visibilidade que os media tradicionais derem à extrema-direita; em segundo, as escolhas estratégicas dos outros partidos de extrema-direita. Nesta fase, sabemos que existe uma procura — um eleitorado potencial — por partidos de extrema-direita em Espanha e em Portugal. Se isto se irá traduzir num êxito crescente do Vox e do Chega, ainda está por confirmar.