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Diogo Faro

Foi a Igreja ou um banco? Então não faz mal

Os bancos, empresas ou indivíduos que têm contas em offshore, os banqueiros que desviam (não é roubar, é desviar) dinheiro), ou os padres franceses que molestaram 300 mil crianças, devem ter direito a um perdão especial pela forma como contribuem para a sociedade. Há balanços que temos de fazer antes de nos indignarmos com tanta veemência com casos destes.

6 Outubro 2021

Sejamos francos, não brinquemos com coisas sérias, e ora digam-me lá, se forem capazes de praticar a honestidade: teria graça alguma, caso o mundo fosse justo? Não têm de me responder já, que eu tenho um pequeno exercício para vos facilitar o raciocínio.

Imaginem um mundo no qual a riqueza era justamente distribuída, e, portanto, um CEO nunca ganharia, por mês, mais 257 vezes do que um mero trabalhador. E claro que que neste mundo seria completamente inconcebível que 1% da população mais rica detivesse 70% de toda a riqueza mundial, que se produzisse comida suficiente para absolutamente ninguém passar fome, mas ainda assim morrerem milhões de pessoas por ano à fome, ou que esses tais 1% fossem responsáveis por mais de 50% do total das emissões de dióxido de carbono que invariavelmente prejudicam muito mais os que mais pobres são. Ou seria ainda meramente fantasiosa a existência de discriminação e violência segundo géneros, orientação social, nacionalidade ou pigmentação.

Já está? Já imaginaram? Não se começaram logo a rir com o nível de estapafúrdio descrito? E atenção que dei uns exemplos muito básicos, mas que ainda assim tornam o cenário imediatamente hilariante. Se o mundo fosse vagamente assim, o que é que ficaríamos a fazer depois? Ler livros e tocar guitarra?

Imaginem que um trabalhador, num qualquer trabalho normal, era bem pago e trabalhava só seis horas por dia (ri-me só de escrever isto, não vou mentir), o que é que fazia depois com o seu tempo livre e o dinheiro que lhe sobrava depois de todas as despesas do mês pagas? Podia brincar várias horas com os fedelhos, dedicar-se-ia a vários hobbies inúteis a que chamaria “paixões”, iria para o café com os amigos ter conversas sempre desinteressantes porque não seriam sobre produtividade ou, no pior dos cenários, não faria nada de nada, ficando apenas a contemplar a existência. E assim acabei de descrever o inferno.

Tudo isto são um conjunto de cenários que em nada beneficiariam a ordem natural das coisas, que é uma hierarquia baseada tanto em mérito, como em direito divino. Se as coisas são como são, por alguma razão o é. E talvez o que muita gente acha injusto na verdade não o seja, e seja até definitivamente justo por ser a natureza das coisas. Bem, não me quero alongar em filosofias, até porque com certeza já perceberam o meu ponto.

Aonde queria chegar com este enorme prelúdio era aos mais recentes casos de polémica social, como a fuga do Rendeiro, os Pandora Papers, ou a pedofilia na Igreja Católica. Calma, a pedofilia é uma coisa bárbara e longe de mim defendê-la (a propósito da natureza das coisas antes referida). O que acho normal é que as instituições de maior poder, e a quem a sociedade deve reverência, merecem viver acima da lei devido à sua importância.

Os bancos, empresas ou indivíduos que têm contas em offshore, os banqueiros que desviam (não é roubar, é desviar) dinheiro), ou os padres franceses que molestaram 300 mil crianças, devem ter direito a um perdão especial pela forma como contribuem para a sociedade. O que é que são 300 mil crianças molestadas por padres só em França, quando distribuem milhões de hóstias pelo mundo (de graça)? O que são triliões de dólares que todos os anos não são pagos em impostos, quando só o mérito e a excelência permitem que tenhamos  a sorte de comungar o ar que respiramos com tantos milionários incríveis e que tanto fazem pelo mundo?

Há balanços que temos de fazer antes de nos indignarmos com tanta veemência com casos destes. Por exemplo, sobre o caso de pedofilia (300 mil crianças, não sei se já tinha referido), o Papa já veio falar, dizendo que era uma vergonha e pedindo para se parar com isso. Pronto, caso resolvido. Vêem? Não é preciso esse histerismo todo a pedir condenações efectivas. Com a Igreja as coisas não funcionam assim, estão acima da lei por direito divino, e os padres pedófilos merecem apenas uma pequena repreensão.

Num mundo que se rege por estas hierarquias naturais (naturais não quer dizer que venham da Natureza, mas sim que foram inventadas por um grupo de homens brancos cishet e impostas a toda a gente), e que evolve no sistema auto-fágico que é o capitalismo, a justiça é sobrevalorizada, ou até incompreendida, porque é subjectiva.

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