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Gisela Casimiro

Classifique a sua viagem com George Orwell

Para mim, o que é estranho é que um ser humano repare noutro apenas se puder cumprir o seu papel de salvador branco.

15 Setembro 2021

Há duas semanas, numa viagem de Uber pela qual não terei pago mais de cinco euros, o motorista que me calhou era um senhor simpático, dos seus sessenta e muitos anos, profissional tanto quanto pude avaliar e tagarela, como frequentemente me acontece. Era, como todo o bom cidadão, especialista em tudo. “Temos de discutir o nosso plafond de afegãos e votar. Muita gente não os quer cá, mas quem manda é o povo. Se o povo decidir, os outros têm de aceitar recebê-los.”

Desta análise política profunda partiu para me relatar um quase acidente com um condutor de trotinete. “Temos mesmo de andar com um olho no burro e outro no cigano, como se costuma dizer. Coitados. Também não quero estar a dizer mal dos ciganos. Dizem logo: «O tipo não gosta de ciganos». Mas é só um ditado popular, não tenho nada contra os ciganos.” Se calhar precisamos de novos ditados, retorqui.

Afinal o senhor também era especialista em todos: “É, mas quando eu era miúdo... às vezes, quando um miúdo era bera, diziam: «Ele é muito judeu». Isso era tipicamente contra o judeu, dizer que o judeu era mau ou era travesso.” A minha viagem chegou ao fim, o senhor ajudou-me a tirar a carga da mala e lá fui eu, montar uma exposição precisamente sobre agressões pelas quais as pessoas racializadas passam diariamente. Mais caminho houvesse e mais pérolas eu teria ouvido.

Pergunto-me se o senhor motorista estaria familiarizado com o poema “Sabedoria para pular”, o primeiro que ouvi a João Negreiros, e que começa assim: diz-se que a Oriente se come arroz / e que os pretos têm ritmo / e os judeus são bons com dinheiro. Continua: e os brasileiros vestem de branco e usam chapéu / menos os brasileiros que são pretos e cheiram cola nas esquinas. E ainda: e os chineses são diferentes / são iguais aos japoneses mas diferentes / mais tristes por não terem máquinas fotográficas.

No ensaio Marraquexe (à semelhança do motorista cujo nome não recordo agora e de João Negreiros), George Orwell fala de judeus, árabes, senegaleses. Negreiros é o único, contudo, que usa a ironia. Diz-nos Orwell: “Quando vemos como é que as pessoas vivem, e mais ainda com que facilidade morrem, é sempre difícil acreditar que caminhamos entre seres humanos. Na realidade, todos os impérios coloniais assentam sobre este facto. As pessoas têm pele morena - além disso, são em tão grande quantidade! Serão realmente de carne e osso como nós? Terão sequer nomes? Ou são apenas uma espécie de matéria indiferenciada, de tom acastanhado, tão individualizados como as abelhas ou os corais?”

Enquanto caminha pela cidade, o autor dá um pedaço de pão a comer a uma gazela, depois encontra um “cabouqueiro árabe andrajoso” que lhe pede comida e a quem ele alimenta também. Segundo o dicionário Priberam, cabouqueiro significa quer uma pessoa que trabalha mal/incompetente, quer um trabalhador das minas/pedreiras, um cavador, quer um mentiroso/aldrabão. Metros depois, um grupo de judeus (um deles cego e que vem rastejando), “saindo de todos os buracos escuros”, ficam-lhe com os cigarros.

Orwell expressa alívio por Hitler não estar ali. Compara o que os árabes (que têm as mesmas profissões, excepto as agrícolas) e os europeus pobres dizem dos judeus (acham-nos agiotas e matreiros) às acusações de bruxaria com direito a fogueira feitas a “velhotas pobres, cujos poderes mágicos não lhes conseguiam sequer garantir uma refeição decente.” Os judeus de Orwell são um pouco como os ciganos acusados de viver do RSI de Ventura.

“Todas as pessoas que trabalham com as mãos são parcialmente invisíveis e quanto mais importante é o trabalho que fazem, menos visíveis são.” O percurso de Orwell continua, enquanto reflecte sobre turismo e pobreza, sobre a visibilidade de uma pele branca e a invisibilidade de uma pele escura. Agora, o seu olhar repara numa mulher, a quem insiste em dar uma moeda. “Ela reagiu com um gemido agudo, quase um grito, em parte de gratidão, mas que manifestava sobretudo surpresa. Suponho que, do seu ponto de vista, o simples facto de eu ter reparado nela significava quase a violação de uma lei da natureza. Aceitava a sua condição social enquanto mulher velha, ou seja, enquanto besta de carga. Quando uma família está em viagem é bastante comum ver um pai e um filho crescido montados em burros, enquanto uma velha os segue a pé, carregada com as bagagens. Mas o que é estranho nessa gente é a sua invisibilidade.”

Para mim, o que é estranho é que um ser humano repare noutro apenas se puder cumprir o seu papel de salvador branco. A mulher é descrita como tendo mirrado com a idade, algo que o autor diz acontecer nas “sociedades primitivas”, mas eu digo que o discurso de Orwell lhe tirou muito centímetros de altura, se a dignidade se puder medir por aí. Curiosamente, o autor reporta as injustiças que nos fazem ferver o sangue, quando se trata de animais, mas que o mesmo não acontece com aquilo a que chama “a dura condição dos seres humanos”. Nesse aspecto, vejo-me obrigada a concordar.

Aquando da morte de Bruno Candé, discuti com uma amiga que dizia que ninguém falava do incêndio no canil onde tantos animais perderam a vida, mas que depois de Candé viria o Baldé e assim sucessivamente. Indignei-me, enraivecida. Como ousava ela comparar uma vida humana à vida de um animal? Como ousava ela afirmar tal coisa, questionar se fora um crime de ódio, um crime racial, quando as testemunhas reportavam as palavras do assassino antes de disparar? Como ousava ela ser tão fria em relação ao pai de três filhos? Sobretudo, não se lembrava ela de que Bruno Candé tinha uma cadela, que inclusive fora a desculpa do assassino para começar o desacato?

Ao fim de um ano e com alguma justiça feita, revisitei essa conversa, pensando ainda em como esta amiga não aceitava as notícias pela infalibilidade do canal que as reportara em primeiro lugar, mesmo tendo outros reportado a notícia em seguida, afirmando o mesmo, por ainda não haver um decreto judicial que confirmasse o veredicto, por ela supostamente não ter informação suficiente para tirar conclusões a favor de Candé, ou saber que em Portugal o racismo acontece frequentemente. Dizia ela, a chorar pelo sucedido aos cães, que eu não me deveria deixar abalar pelo que aconteceu a Bruno Candé. “Passou uma semana e ninguém fala dos animais, que nem se podiam defender... vai acontecer o mesmo a esse senhor”, dizia ela. Passou mais de um ano e não esquecemos e não calamos.

Tivemos uma outra discussão sobre senegaleses recrutados na empresa onde a minha amiga trabalhava, acerca dos quais o seu director dizia estarem felizes por terem uma cama onde dormir — um luxo — pois na sua terra dormiam no chão. Disse ela que eu não pensasse que ele dizia isto por mal, que ele não era racista, afinal tinha trabalhado em vários países de África. Claro, como todos os colonizadores. Só porque as pessoas se sujeitam a certas coisas enquanto imigrantes não significa que vivam assim no seu país, respondi. E isto serve para senegaleses, portugueses, chineses e brasileiros. Serve para toda a gente, mesmo aqueles com uma fisionomia que não a tradicional dos chamados expats.

Eu nunca fui a Marrocos. Creio até agora só ter conhecido uma pessoa que disse ter odiado o lado de pobreza e injustiça do país. Normalmente também ninguém fala da poluição em Bali. O percurso de Orwell termina quando encontra uma coluna de soldados senegaleses, cuja escuridão de tez o autor faz questão de ressaltar enquanto os compara a um rebanho de ovelhas e invoca um bando de cegonhas — obviamente brancas. Como se George Orwell tivesse o mágico poder de ver no escuro, ver tão escuro dentro das pessoas invisíveis. Tal como os outros transeuntes, também os senegaleses estão andrajosos, com roupas e calçado apertados. Um deles, jovem e ingénuo, fica a admirar Orwell com veneração e respeito profundos pelo homem branco.

As pessoas não querem que se repare nelas se for para violentá-las, para criar uma história que não lhes serve por não ser verdadeira, por ser contada em tom condescendente, por infantilizá-las, reduzi-las a animais. No ensaio de Orwell, que data de 1939, ele confessa o tal segredo branco, um pensamento em que todas as pessoas brancas, mesmo as socialistas, partilham e são suficientemente espertas para não revelar um segredo que só os negros ignoram. “Por quanto tempo mais poderemos continuar a enganar esta gente? Quanto tempo faltará para que virem as espingardas contra nós?” As pessoas ficam melhor servidas com o silêncio, sobretudo o alheio, muitas vezes.

É difícil não respeitar Orwell, cair no facilitismo de ser um homem da sua época quando convém, e não exigir que estivesse muito além do seu tempo nas questões coloniais, como nas outras que lhe aplaudimos. Devo ser a única pessoa que prefere Animal Farm a 1984. Gostaria de escrever um livro daqueles e ainda por cima em três meses, como ele o fez. Mas é difícil ler e reler este texto sem afirmar: nós não somos assim, nunca o fomos, nunca nos enganaram. Como tal, ele já não é o mesmo para mim, mas o seu fantasma não se importará certamente com a minha opinião, quando eu devolver finalmente o livro à Rede de Bibliotecas de Lisboa. Desculpem o atraso. Obrigada por me seguirem de volta no Instagram.

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